Falando sacanagem como se fosse sábado

Uns anos atrás eu fui convidada para participar pelo Facebook de um grupo secreto de mil mulheres que falavam de sexo. Um grupo de vanguarda, digamos assim. Um grupo escancarado, educativo, bem-humorado.

Eu já adorei a ideia de estar num grupo secreto, saca? Me senti naqueles filmes onde tem aquelas fraternidades de faculdade “alfabetagamadeltadaputaqueopariu”, onde só poucos e bons tinham acesso, e que tudo que acontece lá é sigiloso, quase pecaminoso. Nem preciso dizer que amei, né? Fora esse detalhe do “ser escondido”, a grande novidade era o conteúdo . Cara, era muita sacanagem exposta. Daquelas que até eu, com minha cabecinha bem abertinha, não conhecia, ou tinha vergonha. Eu? Com vergonha? Sim, aconteceu. Às vezes eu lia um trem que me deixava vermelha. Tinha divulgação de workshops de técnicas para sexo com o mesmo sexo (hein?), tinha palestras com nomes estranhos tipo “conferência das pepecas exorcistas”, tinha ativistas feministas ferrenhas, tinha dicas de masturbação, tinha nudes, tinha causos, tinha debates sobre incertezas com maridos, namoradas, amantes. Tudo livre, como o mundo deve ser. Sem julgamentos.

Quer dizer…. quase sem julgamentos. O ser humano é um bicho que julga o tempo todo, né? Ele não consegue se conter. E isso é ó: uma boixta. Aconteceu o seguinte:

Fulana divulgou um trabalho de arte sexual bem diferente, outra fulana não curtiu e preferiu dar a opinião dela. A primeira fulana não curtiu que a segunda fulana deu uma opinião que ela não estava disposta a ouvir. A segunda fulana não curtiu que a primeira fulana não estava disposta a ouvir. Daí uma galera curtiu a atitude da primeira fulana. Daí veio a turma do fundão e disse que quem estava certa era a segunda fulana porque o grupo era livre e ela era livre pra dar opinião. Daí vieram as ativistas querendo que a autoridade, no caso, a intermediadora do grupo, intervisse. Daí a intermediadora resolveu intermediar e a primeira e a segunda fulana ficaram putaças. Daí uma ou outra ou as duas foram expulsas. Daí a galera da frente, do meio e do fundão se revoltou. Daí a intermediadora falou que a barra era pesada e colocou seu cargo à disposição. Daí uma líder super atuante bateu no peito e disse: “então diga ao povo que eu fico”. Daí a galera da arquibancada começou a debater a atuação da atuante nos comentários e hostilizar geral. E então a nova líder largou mão e disse “eu também não quero mais saber dessa porra”… e daí… bom e daí eu já estava exausta de ser voyeur desse entretenimento estranho e fui dormir.

No dia seguinte, eu, que sou bicha curiosa, acordei querendo saber que fim levou a discussão. Ó-be-veo!!! E lá fui eu procurar o grupo secreto no meu Facebook. E quedê? Taondeeeee??? Donde estás? Sumiu. Evaporou-se. Implodiu-se.

Ou seja, um grupo reunido para ser livre não conseguiu segurar sua própria onda de ter pessoas com opiniões diferentes. Porque pessoas com opiniões diferentes também não conseguem segurar a própria onda de, às vezes, fazer a Glória Pires no Oscar e pro bem da nação dizer: “não posso opinar”. Uma situação bem familiar com o que a gente anda vendo por aí, né, não?

Mas a tristeza maior é que era um grupo de mulheres, de apoio, de sororidade. Era um movimento bacana, uma esperança. Mas a esperada sororidade não rolou. Porque a real é que ainda não rola como deveria, saca? Ainda fica muito no discurso e não tanto na atitude… mulheres continuam julgando mulheres, continuam culpando vítimas, continuam presas em padrões impostos pela sociedade e por aí vai….

Mas antes que esse texto fique sério demais, que não é nem de longe a intenção, vem aí a boa notícia.

Ano passado recebi um convite para participar de um grupo não secreto, mas privado, de mulheres. Quase três mil mulheres, miagente!!! E tem de “um tudo”. Safadas, engraçadas, inseguras, que sofrem abuso, libertárias, sozinhas, divorciadas, casadas, lésbicas, héteros, solteiras, esterilizadas, mães, que fazem suruba, que ficam no papai-com-mamãe, felizes, tristes, que usam consolo, que usam a mão, que mandam nudes, que não mandam nem fudendo, que tem fetiche, que amam, que são amadas. Ou seja, mulheres reais com todas as suas belezas e complexidades. E elas mandam gifs, músicas, fotos, videos, contam histórias, piadas, fazem perguntas, entendem a dor e a delicia de ser o que são.

Olhar esse grupo de vez em quando é entretenimento do bom, eu garanto. É como estar num bar, tomando um Cosmopolitan com as personagens do Sex and the City. Só que não são somente quatro personagens, são milhares. É MARAVILHOSOOO!

Não dá pra mostrar o conteúdo aqui, obviamente, mas com inspiração nele, eu queria dizer cinco coisas:

1. Respeita as mina, porque elas são phoda.

2. A liberdade e a sexualidade podem ser cultivadas sim, e com muito bom humor. Bora praticar isso aê.

3. A sororidade é uma esperança, vamos se agarrar nela, gentchy.

4. Tem uma frase importante que diz muita coisa: “Você não precisa achar a sua metade da laranja. Você já é uma laranja inteira. Você só precisa achar alguém que te chupe bem.”

5. E pra quem ainda não viu, fica aqui um trecho de uma versão deliciosa da música Construção de Chico Buarque:

“Chupou minha buceta como se fosse manga,

Mamou daquela vez como se fosse a última

Chupou aquele pau como se fosse o único

Me atravessou a rola com seu traço tímido

Sentando e subindo num desenho mágico

Bateu na minha cara com uma rola sólida

Entrou e saiu como se fosse máquina

Gritou e gozou até descer uma lágrima

E se acabou no chão com o seu pinto flácido.”

Um ótimo dia.

PS: música de autoria comunitária. Eu contribui com as três últimas frases, mas é um ótimo exercício de composição. Recomendo.

Escrito por

Oi! Sou Ana Ferrari.  Produtora de eventos, de filha bonita, de situações ridículas e de trapalhadas aleatórias. Especialista em perder coisas, fazer besteira, viver a vida e dar risada de si mesma.  PHD em crises existenciais que chegam antes dos 40 anos. Paulistana convicta com coração carioca. Leonina até dizer chega. Nem de direita, nem de esquerda. Interessada em igreja, centro, templo e terreiro. Experiente no luxo, no lixo e na luxúria, com vivência no erudito e no popular. Praticante de artes marciais, degustações de café, vinho e seriados. Aprendiz de escritora, de viajante e de violonista. E agora, de blogueira. ​ Pode isso, produção???

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