Todo Carnaval tem seu fim.

Acabou? Fala pra mim que acaboooou!!!

E foi então que chegou aquele momento que eu mais temia: o momento em que eu ia olhar a timeline dos amigos do Brasa e sentir aquela invejinha, aquele sentimento de “pohaaaan, eu queria estar lá”. É claro que eu já tinha sentido uma pontinha disso na época de festa junina, quando eu olhava o povo todo se jogando na pamonha, dançando quadrilha, trepando no pau de sebo… Mas foi de leve… eu olhava uma foto ou outra e pensava: “Ah que saudade disso, que legal aquilo…”, mas eu piscava e passava. Só que agora chegou aquela época que mexe comigo de verdade. Aquela época foda, de brilho, confete e purpurina. Chegou o Carnaval. E no Brasil agora o Carnaval começa em Janeiro e termina em abril, né não??? Tem mais pré-Carnaval e Ressaca pós-Carnaval do que o Carnaval propriamente dito. Não tem fim. Não dá nem mais pra terminar um namoro e voltar depois de cinco dias dizendo que se arrependeu. Tem que terminar por três meses e rezar pro cara ou pra mina não ter arranjado outro cacho, ficante, peguete, crush, seja lá o que for. É tanto tempo que a pessoa pode até se apaixonar num bloco em janeiro e casar em cima do trio em abril.

Pohaaaaan! Eu simplesmente AMO Carnaval. A-M-O! Qualquer um: de rua, de clube, de bloco, de trio, de boteco, de escola de samba, de axé, de pagode, de marchinha, de funk, do Rio, de Sampa, de Olinda, de Ouro Preto, da Baêa. Qualquer um. Pra mim é a melhor época e acabou. Foi complicadíssimo ficar nas redes sociais esse mês, foi preciso muita meditação e terapia pra trabalhar tanto recalque. O único ponto positivo é que ganhei uma habilidade única: a de pular stories no Instagram na velocidade da luz. Era só eu ver um glitter que já saia “dedando” o celular loucamente até aquele story filhodamãe passar. Fiquei com o dedo mais rápido! E opa! Acho que isso deve servir pra alguma coisa… (ah safadenhaaa…).

Minha paixão pela época do Rei Momo começou cedo. Desde pequena eu ficava acordada até de madrugada, esperando a Mangueira entrar (aquela piadinha antiga, igual a do pavê – é pavê ou pácomê – desculpe, gente). É sério, não tô falando de sacanagem (pelo menos por enquanto). Eu, criança, ficava até altas horas da manhã pra ver todos os desfiles. Todos. Minha mãe, parça total, deixava e ficava junto até o amanhecer. Amava a bateria, as fantasias, sonhava em desfilar, e ficava grudada na televisão cantando os sambas, feliz da vida e depois acompanhava a votação com a caneta na mão e xingando os juízes, juntamente com aquele monte de “bicheiros” donos de escola.

A associação do Carnaval com esse lance de sacanagem só começou uns anos depois. Eu, já nem tão pequena assim, continuava grudada em frente à TV (aquela de tubo mermo), só que agora ficava revezando os canais, entre a Globo e a Band. Na Globo eu assistia as escolas de samba e na Band eu via aqueles tão famosos e safados bailes de Carnaval do Scala no Rio (quem lembra disso, meu povo???). Baile do Verde e Rosa, Baile do Vermelho e Preto, baile de tudo que é cor. Minhanossinhora, aquilo era sacanagem pura e meus hormônios gritavam: “Mano do Céu, me deixa participar dessa putaria!” (acho que é a primeira vez que eu confesso isso publicamente, oh, céus).

Tem uma história sobre esses bailes, que eu amo e nunca esqueci (e olha que a minha memória é passível de dó, de tão ruim). Lembro de uma entrevista do Otavio Mesquita contando sobre um episódio que rolou nesses bailes. Ele contou que a Cristina Prochaska, uma atriz dos anos 80, estava fazendo a cobertura pela Band e junto com ela havia um cinegrafista fazendo as imagens (dãaah, óbvio). Quando ela foi entrevistar uma moça daquelas “de família”, o cinegrafista começou a fazer o “take” dela de cima a baixo para mostrar o corpão e a fantasia e com isso acabou também mostrando que a bichinha tava o quê? Sem calcinha!!! Afinal ela era uma pessoa prática, não é mesmo? Quando o diretor do programa se deu conta, ele ficou desesperado porque aquelas imagens estavam indo ao ar, ao vivo, e naquela época era liberado “pero no mucho”, saca? Então ele começou a gritar pro cinegrafista no ponto eletrônico: “Foca na Prochaska, foca na Prochaska!” E oquiqui o cinegrafista fez??? Deu um zoom intrauterino na Prochaska da mulher sem calcinha. Quanto mais o diretor gritava “NA PROCHASKA!”, maior ficava a piriquitona da mulé na tela da TV. Tapa-sexo só mesmo na avenida, miagente!

Enfim, era esse o nível. Era bunda, peito e “sarração” pra tudo que é lado. Uma “maravilhosidade” pra uma adolescente que cresceu numa época onde não existiam xvideose porntubee que fitas VHS picantes ficavam escondidas num cantinho inacessível pra menores na locadora do bairro.

Essa mistura de samba, suor, cerveja, pouca roupa e muita esfregação, mexia bastante com minha cabecinha juvenil. Virou um fetiche, meu povo. Uma fantasia de fantasia. Pra se ter uma ideia, o fetiche foi tanto que o primeiro filme pornô que eu comprei e assisti com o maridão foi – adivinha??? – “Carnaval 2002”. Podem rir! Podem julgar! Ou podem confessar “tamojunto” mentalmente! Mas eu vim aqui trazer verdades.

Abre parênteses:

Meu amigo, se você tem seus quase quarenta, como eu, você sabe bem que o nosso acesso ao mundo pornô na adolescência era escasso, quase nulo. Você vai admitir que os sábados eram aguardados com ansiedade para assistir (e fingir que está dormindo) o Cine Privé da Band. Eram filmes ruins, beeeem ruins, mas quem ligava??? Era a única oportunidade de ser feliz e ver um “quase sexo”. Fora isso, você conseguia ver “peitchenhos” somente no melhor programa de todos os tempos da televisão brasileira: o Coquetel, de Carlos Miele. Tutti-frutti, tutti-frutti, tutti-frutti… (quem não conhece, por favor, vá ao Google e deleite-se). Era tão bom que eu acho que não durou nem um mês. Droga!

Outra possibilidade aguardada com carinho era aos domingos. Era dia de torcer para as convidadas da Banheira do Gugu (umaumaumaê!) deixarem “sem querer” a parte de cima do biquíni escorregar junto com os sabonetes. Ooopsy! (Estou deixando claro que aqui que ainda sou hetero, mas estou percebendo enquanto escrevo esse texto que sempre tive fixação por peitos, ó que loucura!).

E falando em Gugu, sabonete, e uma adolescência vivida em tempos de TV aberta, descobri na semana passada que uma das Rainhas do Carnaval AND da Banheira do Gugu, tem um perfil nas redes sociais com conteúdo e dicas de sexo. Interessante… Na entrevista que eu li, ela disse que todo Carnaval participava de orgias no camarote e rolava um chacachanabuchaca atrás da arquibancada. Muito interessante… Só que, olha que coisa triste, as filmagens aéreas da Globo acabaram com a farra, porque as câmeras poderiam flagrar as trepadas todas. Em tempos de drones fica difícil transar, não? Ainda bem que agora tem pelo menos xvideos pra compensar.

Fecha parênteses.

Mas a pergunta que não quer calar é: e aíiiiiiiiii???? Tu realizou a fantasia na prática????

Não. Ene-a-ó-til. Nada. Nadinha. Nadica de nada.

A real é que na prática, o Carnaval pra mim foi 99% do tempo, acreditem se quiser, tranquilo. Eu curtia a música, dançava horrores, cantava loucamente, bebia água e refrigerante e voltava pra casa feliz e querendo mais. J-U-R-O.

Já passei em clube, bloco, pipoca, praia, avenida…. mas juro… tudo tranquilo.

Quer dizer… senta que lá vem história.

Quando eu tinha uns treze anos comecei a frequentar a matinê de Carnaval de um clube de Sampa. Era uma matinê, mas não de criancinha, já rolava minimamente uma “beijação”, saca? Bom, no meio do Alalaô, avistei um cara que devia ter lá seus quinze ou dezesseis anos (uaaau), mas que já tinha aquela pegada de homem, aquele corpão, ombros largos, bronzeado, e ele sabia bem que era gostoso. Era metido pra cacete. Eu, cheia de hormônios, olhei aquilo tudo e fiquei obstinada a pegar aquele moço. Pra ser mais fácil, vamos chama-lo com um nome de cidade, imitando descaradamente o melhor seriado do mundo “Casa de Papel”. Ele tinha todas as características para se chamar “Rio”, mas por motivos que futuramente serão descobertos, faremos assim: o moço metido, gostoso, mais velho, chama-se Helsinki.

Ok, como missão dada é missão cumprida,  e eu nunca fugi à luta, claro que eupeguei Helsinki naquele Carnaval. Quer dizer, ele me pegou. Delícia que foi. Rápido, porque obviamente ele deveria ter outros compromissos de pegar outras pessoas na mesma noite, mas foi ótemo. Enquanto ele dava aquele famoso “Peraí que eu vou ao banheiro”, outros garotos tentaram se dar bem comigo.  Incluindo nessa lista um menino simpático, loirinho do olho azul, que deveria ter minha idade, mas parecia que tinha uns oito anos, tadinho. Aquela fase ingrata para os garotos, né? Eu com treze era um mulherão, ele com treze era um menino.

Corta para o Carnaval seguinte.

Lá fui eu para o mesmo clube, já com meus incríveis quatorze anos. Chegando lá, logo quem eu vejo? Helsinki. Ele me reconheceu. Ele me pegou novamente na primeira noite. E na segunda. E na terceira. Nos pegamos todas as noites. Delícia. Certamente ele era o Carnaval pra mim. Claro, que agora com quatorze anos e peitos maiores (pausa para um suspiro de saudades de lembrar dos meus peitos quando eles enchiam as mãos com perfeição e ainda olhavam pra cima), eu estava ainda melhor que antes. Com isso, e obviamente porque era Carnaval e o nível de testosterona quadruplica nessa época, eu tinha outros garotos querendo um pouco do meu ziriguidum. Inclusive de novo aquele menininho simpático loirinho do olho azul. Dessa vez mais simpático e ainda um pouquinho maior, mais interessante. Ele tentou insistentemente ficar comigo. Tentou todas as táticas que você conhece nessa idade (ok, não são muitas, eu sei), mas não, não cedi. Ainda tava meio verde, saca? Tinha que amadurecer um pouquinho mais….

Pula mais um ano, outro Carnaval.

Eu tinha um único objetivo nessa vida: Helsinki. Eu estava obcecada pela possibilidade de carnavalizar com ele de novo. Estava embrenhada nessa euforia com um mês de antecedência. Primeira noite, e lá fui eu pro clube. Procuro, procuro e nada. Olho o camarote, pego um ou dois “trenzinhos” (quem lembra?), dou a volta no salão inteiro… Gente, quedê Helsinki??? Certamente, agora mais velho e maior de idade, ele cagou e andou para a matinê e foi se jogar num Carnaval mais adulto. Bom pra ele. Péssimo pra mim.

Maaaaas…. a noite não estava totalmente perdida. Não é que no meio da minha procura pelo meu moreno eu encontro um louro? O menininho simpático, loirinho do olho azul, estava espetacularmente maduro, provando que paciência é uma dádiva e às vezes vale a pena esperar. Pohaaaan, ele estava incrível e eu finalmente cedi aos dois anos de tentativa do mocinho. O nome? Oslo. (nesse momento quem é fã do seriado já matou a charada). E foi beeem legal. Oslo era bonito, divertido, fofo e todo gostosinho. Me joguei nos braços de Oslo todas as noites. Viva Oslo!

Na última noite de folia, fomos lá pro batuque e quem chegou na bagaça??? Sim, o próprio, meu moreno Helsinki. E ele está acompanhado de quem??? De Oslo.

Sim, meus amigos. Helsinki e Oslo eram irmãos. IRMÃOS. Tão diferentes, mas irmãos. Caraleeeooo!

Hoje, no alto da minha maturidade e safadeza, ao descobrir uma informação dessas com certeza eu falaria: bora fazer uma festa em família nós três! Mas naquela época, com toda minha inocência, eu só pensava: ai que merda, foge que é cilada, Bino! E fugi.

E então eu cresci. E também caguei e andei pra matinê. Bom pra mim. Fui pra Porto Seguro e conheci o primeiro grande amor da vida adulta lá, no Carnaval. Depois foram anos de Salvador com esse amor e depois mais um ano com outro amor e por aí vai.

Quando o Carnaval de Salvador chegou naquele ponto de você ter que vender um rim e ainda parcelar o abadá em vinte vezes no cartão, eu não tive outra chance senão voltar a Porto Seguro para descer na boquinha da garrafa e de algum jeito curtir a Bahia. E foi lá, enquanto eu ralava o Tchan e tomava uns capetas* que eu tenho um dejavu. No meio da multidão, vindo em minha direção, com a mesma morenice, corpaço e o carão de “eu sei que eu sou foda”… ele… Ta-na-na-nammmmm… Helsinki.

E o que a gente fez? Beijou.

E depois? Foi pra praia.

E o que aconteceu na praia depois de uma adolescência inteira de espera??? N-A-D-A.

O pequeno Helsinki, vejam vocês, morreu na praia. Mó-rreu. A pipa do vovô não sobe mais, miagente. Pois é, dizem que todo Carnaval tem seu fim.

E quanto ao Oslo? Bom, Oslo reapareceu logo depois desse episódio do irmão e curtimos uns dias de folia a dois. Foi bom enquanto durou. Essa história em família acabou logo depois do Carnaval, quando eu de fato me enrosquei com o verdadeiro amor da minha vida. O destaque do meu carro alegórico. A letra do meu samba. O Pierrot dessa Colombina que vos fala. Que adivinha só? Não liga a mínima pro Carnaval!  Mas, esse sim, entra em qualquer fantasia comigo.


P.S 1: esse texto foi escrito apenas para visualização do presidente. O intuito aqui é que ele se escandalize com o que o Carnaval causa nas pessoas e publique no Twitter para que eu ganhe visibilidade. #publicabolsonaro

P.S 2: Quando a Mangueira entra é inesquecível. Parabéns, Verde e Rosa!

P.S 3: eu sei que falei pra quem não conhece a jóia da televisão brasileira chamada Coquetel dar um Google pra saber do que se trata. Mas realmente eu acho que merece ser mostrado por aqui. Olha, gentchy, veja que coisa espetacular.

Escrito por

Oi! Sou Ana Ferrari.  Produtora de eventos, de filha bonita, de situações ridículas e de trapalhadas aleatórias. Especialista em perder coisas, fazer besteira, viver a vida e dar risada de si mesma.  PHD em crises existenciais que chegam antes dos 40 anos. Paulistana convicta com coração carioca. Leonina até dizer chega. Nem de direita, nem de esquerda. Interessada em igreja, centro, templo e terreiro. Experiente no luxo, no lixo e na luxúria, com vivência no erudito e no popular. Praticante de artes marciais, degustações de café, vinho e seriados. Aprendiz de escritora, de viajante e de violonista. E agora, de blogueira. ​ Pode isso, produção???

Um comentário em “Todo Carnaval tem seu fim.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s