Micos na terra do King Kong

No drive-thru do Mc Donald´s…

– No que posso ajudar?

– Um número 1 e um número 4 com milkshake e batata frita grande, por favor.

– Ok, senhora, dirija-se à última janela.

Paro ali na frente da atendente e ela me dá uma bebida. Me dá a outra. Eu peço:

– Você poderia me dar uma bandeja, por favor? (morrendo de medo de sujar o carro e levar a bronca do maridón).

Então ela me dá a bandeja. Eu tento colocar o primeiro milkshake. Ele cai. Eu grito: Oh my God! Eu tento colocar o segundo. Também tomba. Eu grito: Fuck! Eu corro pra levantar o copo e o chantilly carimba o banco do carro. Eu grito: Shit! Tento tirar a bolsa que estava atrapalhando e ela cai de cabeça pra baixo no chão, e tudo que estava dentro se espalha. Eu grito: caraleeeeo! (palavrões em português são mais libertadores). Eu consigo finalmente resgatar os dois milkshakes. Agradeço aos céus que as tampinhas americanas são melhores que as brasileiras. Olho no retrovisor e tem um carro com farolzão na minha cara esperando eu sair. Eu grito: Ah, vá pra putaqueopariu! Saio com o carro, louca, e ainda puta que aquele milkshake maravilhoso nem era pra mim. Nada era pra mim.  Por que? Ora, bolas, era uma segunda-feira, ou seja, era dia de dieta.

Dez minutos de estrada e chego em casa. Desligo o carro, pego as bebidas, lambo a carimbada do chantilly, cato a bolsa com tudo que caiu e procuro o lanche. Lanche? Lancheeee??? Cadê você? Quedê o lanche???? Não peguei. Oh, my God! Fuck! Shit! Caraleeooooo!

Chego em casa, entrego as bebidas aos destinatários, conto a gafe cometida e volto ao local do ocorrido.

No drive-thru do Mc Donald’s…

– No que posso ajudar?

– Moça, olha só, eu estou bem envergonhada, mas eu realmente acho que esqueci de pegar as minhas comidas, só levei as bebidas.

– Yes ma’am. Dirija-se à última janela.

– Me desculpe, deve ser a primeira vez que isso acontece.

– Não, minha senhora, só hoje já aconteceu comigo duas vezes.

Sim, serviu de consolo. Afinal eu não sou a única que sofreu esse defeitinho de fábrica, de vir com a cabeça sem todos os parafusos. Volto pra casa com todos os lanches (nenhum pra mim, fuck!) e com uma história pra contar.

E pensei que isso só podia ser uma vingança do destino.

No mesmo dia eu tinha sacaneado muito meu marido. Na minha cabeça eu tava sacaneando mais ainda, fazendo bullying mermo, mas por fora eu tava pegando mais leve porque ele estava bem puto da vida.

Naquele dia tinha chegado pelo correio todos os cartões e folhetos da empresa dele, que ele mesmo havia feito o design com o maior carinho e gastado 90 dólares. Cartões: chegaram os mil, num papel que ele achou que era bom, mas que era uma boixta. Já reclamou, mas ok. Folhetos: neh! “no folhetos”. Chegaram cartazes.

Eu pergunto: “Cartazes??? Mandaram errado???” Ele responde: “Não, Ana. Eu mandei fazer folhetos de 11×19. Só que eu achei que era centímetros e era inches (polegadas)”. O que dá um cartaz de 28 x 48cm, miagente!  Vai tudo pro lixo.

Quase um ano nos EUA e você faz isso? Ai que burrrrrro, dá zero pra ele, professora.

Mais um mico da família na América. Sim, porque Ó-B-V-I-O que não foram só esses, não é mesmo???


Maridón mesmo já aprontou outras…

Ele já perdeu a chave de casa num estacionamento de uma loja, passou o dia todo e só percebeu quando chegou em casa, depois de ter passado por mais vários lugares. Quem teve que resolver por ele não sabia falar inglês? Eu.

Ele já me fez ir até a concessionária brigar com as pessoas em inglês, porque supostamente elas não nos deram o registro do carro quando compramos, para então descobrirmos que o tal documento do carro estava com ele há 6 meses e ele só não tinha identificado que aquilo era um registro.

Ele também foi até NYC trabalhar, gastou uma hora de viagem e mais 30 doletas de pedágio, para descobrir, somente quando chegou no local, que o evento que ele ia cobrir seria no mesmo dia sim, mas do outro mês.

Ele contou numa rodinha na academia, para um monte de americanos, gargalhando, como era engraçada uma pegadinha do Silvio Santos, onde um “homem-bomba” gritava alguma coisa em árabe e largava uma mochila e as pessoas saiam correndo, achando que todo mundo ia dar risada, e todo mundo ficou sério, porque na América isso não tem graça nenhuma (talvez em nenhum outro lugar do mundo tenha).


Marina, minha pequena-grande filha, que puxou absolutamente tudo da mãe, inclusive o dom de ser desastrada, também já aprontou algumas…

Pra começar, DO NADA, ela caiu de uma cadeira em plena reunião com o gerente do banco. Foi tão ridículo que nem ele, que é profissionalmente sério, conseguiu segurar o riso.

No mesmo dia, ela bem cansada do papo de adulto, de conta, de cartão e afins, resolve ficar no carro, no estacionamento do banco e dar uma dormidinha. Eu levo ela até lá, aviso que vou trancar o carro e que estou logo em frente na sala do gerente, e que, caso ela precisasse de mim, era só buzinar. E então, obviamente, ela fica com vontade de fazer xixi. E ela buzina. Uma. Duas. Três vezes. Claro que eu não ouvi. E então ela resolve abrir o carro… PÉEEEEH, o alarme dispara. Atraindo o olhar de todos, e finalmente, chamando a atenção da mãe surda. Chego no carro, antes da polícia (Thank God!), e lá está ela, num misto dessas duas caras:

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Criados na selva-de-pedra chamada Sampa, sem oportunidade de vivenciar pequenos prazeres da vida no campo, quando chegamos nos Estados Unidos, vivendo no subúrbio, nos vimos com a incrível possibilidade de colher de vez em quando nosso próprio alimento. Uma experiência deliciosa em todos os sentidos. Já colhemos morango, mirtilo, amora, abóbora, maçã e por aí vai. Chegou a temporada da colheita de pêssego e lá fomos nós pra mais uma aventura. Chegando na fazenda, Marina (ela de novo), empolgadíssima, saiu correndo pelas plantações de verduras, passou por dentro do milharal e avistou aquela infinidade de pêssegos do tamanho de bolas de tênis pra tudo que é lado, uma cena linda. Óbvio que ela não se contentou em pegar os mais fáceis e foi logo subir no pessegueiro, porque tudo era festa. Poucos minutos depois ela começa:

– “Mãe, tá ardendo. Mãe, tá doendo. Mãe, tá coçando.” E começou a chorar.

E eu 80% preocupada e 20% dando risada (ai Deus, me perdoa, mas sou dessas), pergunto:

– “Quequitaaconteceno”???

– “Tem alguma coisa na minha roupa. Tá pinicandooooooo!!!!”

Resumo da história: ela foi até o fim da fazenda praticamente pelada, chorando horrores e eu ainda tive que pedir uma mangueira emprestada pra aliviar a coceira da bichinha. Taquei-lhe água.  Marina voltou pra casa sem roupa, toda molhada, cheia de espinho e vergonha. Mas também cheia de pêssego, que é o que importa.


Todo dia ela faz tudo sempre igual (olá, Chico Buarque). Vai e volta da escola naqueles ônibus amarelos tão presentes nos filmes e na nossa imaginação. Vai sozinha até o ponto e volta também, porque ela já se considera gente grande. Chega sempre no mesmo horário, religiosamente às 16h, vem sempre correndo, com sorriso no rosto e esbaforida querendo mijar. Num determinado dia foi diferente. Deu 16h e nada. 16:05h, nada. Achei estranho, mas ok, imprevistos acontecem. 16:10 ela chega, entrando que nem um furacão, batendo a porta de casa, chorando litros. E eu corro pra ela, já abraçando e analisando o corpo inteiro numa fração de segundo, vendo se tá tudo inteiro e no lugar e pergunto:

 – “Quequitaaconteceno”???

Muitos soluços depois, ela consegue pronunciar a frase:

– “Dormi no ônibus e perdi o ponto. E eu tive que ir em todos os outros pontos ouvindo os alunos falando de mim. E eu tava muito cansada e devo ter dormido de boca aberta. Eu não quero ir na escola amanhã.”

Eu, por dentro, dando muita risada, e por fora, dando muito apoio, digo:

– “Quem nunca dormiu no busão e perdeu o ponto”?


Bom, não para por aí… Já teve polícia batendo na porta de casa; já colocamos a caixa de correio do lado errado; já passamos três meses disputando um banheiro (quase fazendo xixi na banheira porque a privada estava ocupada) porque achamos que o outro estava quebrado e não estava; já chamamos gente pra consertar carrinho de cortar grama achando que estava com defeito, mas a real era gente que não sabia ligar; já achamos que o airbag do banco do passageiro do carro estava com defeito, porque a gente não sabia que precisava sentar pra detectar presença e acionar o dispositivo automático… Enfim, dá pra encher algumas páginas de pequenas histórias dessa aventura chamada “morar fora”. As vezes parece trágico, mas a real é que é sempre cômico. E vamo que vamo, seguindo em frente, colecionando micos na terra do King Kong. E dando risada sempre, porque a gente veio nessa vida foi pra isso mermo.

 

 

 

 

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Escrito por

Oi! Sou Ana Ferrari.  Produtora de eventos, de filha bonita, de situações ridículas e de trapalhadas aleatórias. Especialista em perder coisas, fazer besteira, viver a vida e dar risada de si mesma.  PHD em crises existenciais que chegam antes dos 40 anos. Paulistana convicta com coração carioca. Leonina até dizer chega. Nem de direita, nem de esquerda. Interessada em igreja, centro, templo e terreiro. Experiente no luxo, no lixo e na luxúria, com vivência no erudito e no popular. Praticante de artes marciais, degustações de café, vinho e seriados. Aprendiz de escritora, de viajante e de violonista. E agora, de blogueira. ​ Pode isso, produção???

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