Passa um cheque.

“Manoooo! Esse país é uma roçaaaa!”

Eu nunca pensei que falaria essa frase aqui nos Estados Unidos… A gente passa a vida idolatrando algumas coisas daqui, admirando tudo o que os americanos fazem e de repente você se dá conta que em uma coisa ou outra eles estão um pouco assim… “atrasadinhos”.

Sim, eu já falei essa frase nem uma e nem duas vezes, foram várias! Mas a primeira vez nunca vou esquecer, foi por causa de um cheque.

Aí você me pergunta: cheque??? Quem ainda usa cheque??? Pois então, é disso que eu estou falando.

Logo no meu segundo dia aqui, fui abrir uma conta no banco pra começar a ser alguém nesta terra.  Depois de passar horas por lá, saí com tudo certinho: conta, cartão de crédito, de débito, poupança, conta até pra minha filha… a porra toda. Saí feliz com um envelope cheio de informação, me sentindo a pessoa mais importante do planeta. Dentro do envelope tinha uns panfletos, umas coisas importantes, cartão do gerente e uma folha com três cheques destacáveis. “Ok, eu pensei… vou deixar aqui no fundo da gaveta, porque não vou usar mermo…”.

Duas semanas depois, minha filha chega do primeiro dia da escola cheia de papel pra eu ver e assinar e um deles era sobre uma excursão no custo de 11 dólares (nesse momento as mães brasileiras com filhos em escolas particulares que pagam 200 reais em qualquer ida até a esquina caem de costas), e escrito nesse papel vem: “pagamento somente em cheque”. “Ok”, eu pensei… “Deve ser porque é escola, é pública, tem que ser desse jeito.” Olhei no Youtube um tutorial de cheque americano pra ver como preenchia (para fazer tudo direitinho, né?), e lá se foi meu primeiro cheque.

Mais duas semanas depois e a casa que alugamos, que é de 1950 (isso é um ótimo assunto pra outro texto), deu um “pobreminha” e tivemos que chamar o eletricista. Maravilha, serviço feito bonitinho, e no final: “Como posso fazer o pagamento?”, eu pergunto. E o moço responde: “só em cheque”. “Ok”, eu pensei… “É um serviço, uma mão-de-obra, não vai mesmo aceitar cartão de crédito…” Peguei o cheque no fundo da gaveta e mandei bala (depois de dar outra olhadinha no Youtube, pra não errar essa merda).

E outra semana chega, e a hora é de quê, miagente? De comprar um carrooooo! Ebaaaaa! Lá fomos nós! Depois de passar 5 horas na concessionária (não estou brincando, foram 5 horas mesmo), discutindo taxas de juros, possibilidades de financiamento e tudo mais, finalmente fechamos negócio. Hora de pagar a entrada. “Dá pra passar tudo no cartão de crédito?”, pergunto eu. “Somente metade. A outra metade tem que ser no cheque”, diz o vendedor. Com cara de exclamação eu revido com uma interrogação: “Mas eu posso te fazer uma transferência? Ou te pagar com cartão de débito? Ou até mesmo ir ao banco aqui perto e te trazer em dinheiro?”. E vem a resposta: “No, ma’am, I´m sorry. A empresa só aceita cheque”. Mano! Manoooooo! E lá fui eu até em casa pegar o último chequinho do fundo da gaveta e voltar pra concessionária.  – Um parênteses aqui: sejamos justos porque depois foi só coisa de primeiro mundo: saí com o carro na hora, emplacado e com seguro. Tá meu bem?

Com todos os meus cheques se esvaindo na velocidade da luz, e já sabendo que eu teria que chamar o eletricista de novo, percebi que teria que pedir um talão no banco com urgência. Entrei no site e lá fui eu ver como era o procedimento para pedir mais cheques… E foi então que o banco me direcionou para uma empresa terceirizada para eu pedir e personalizar meu cheque. Eu disse PERSONALIZAR um cheque. Sério? Sério.

Primeiro você pode escolher o fundo do seu cheque. Ele pode ser de gatinhos, dos Minions, da Hello Kitty, do Frozen, da bandeira dos Estados Unidos, de praia, de campo, do raio que o parta, pode ser até com a foto da sua família. Oi??? Sim.

Depois você escolhe a frase que vai no cheque. Por exemplo: “IN GOD WE TRUST” (Em Deus nós acreditamos). Oi??? Sim.

Eu só conseguia ler tudo aquilo e fazer uma pergunta: PRA QUEEEEEEEEEEEEEEEEÊ?

E por último você escolhe a quantidade: 42 ou 84 cheques. Agora me diz quando eu vou usar 84 cheques nessa vida, Senhor? Me diz?

Bom, hora de pagar…. Quanto? 14 dólares. Não, o banco não te dá de graça. E isso foi o custo de um cheque sem fundo (cheque sem um fundo decorativo, e não “sem-fundo”) e sem frase, porque eu não sou obrigada. E para enviar? Mais 12 dólares. Tá de brincadeira…

E como eu faço o pagamento, em cheque? Não, desconta diretamente da conta, ou debita no cartão de crédito. Ah, vá pra peida!

E quando você acha que não dá pra escrever mais nada sobre esse único assunto, ainda tem mais… Com mais de um mês morando aqui,  começam a chegar as primeiras contas pelo correio: celular, internet, carro, cartão de crédito… Você abre a carta e vem:

1 – o extrato ou demonstrativo.

2 – o valor que deve ser pago.

3 – um envelopinho vazio. Pra quê? Caso você queira pagar a conta em cheque e enviar pelo correio. MA OI??? OOOOOOOOOI????

Só tenho uma coisa a dizer: Roçaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa!

cheque gatinhos
Cute!
exemplos cheques
Perdida nas possibilidades…
propaganda cheque
Exemplinho de como funciona a coisa…

P.S 1: Não quero ser pejorativa com quem mora efetivamente na roça, mas é um jeitinho de falar que é um lugar onde a modernidade não chegou. E isso também é uma mentira, porque a gente sabe que a roça de hoje tem tratores modernérrimos, ok? Mas deu pra entender, né?

P.S 2: Descobri que existe uma indústria monstra de impressão de cheques. Várias empresas! Walmart, Sam´s Club, “essas porra tudo” imprime cheque também.

P.S 3: Não sei se o mais louco é pagar uma conta via cheque ou mandar um cheque pelo correio. Mas pelo jeito, aqui é confiável e não tem extravio. Pelo menos…

Escrito por

Oi! Sou Ana Ferrari.  Produtora de eventos, de filha bonita, de situações ridículas e de trapalhadas aleatórias. Especialista em perder coisas, fazer besteira, viver a vida e dar risada de si mesma.  PHD em crises existenciais que chegam antes dos 40 anos. Paulistana convicta com coração carioca. Leonina até dizer chega. Nem de direita, nem de esquerda. Interessada em igreja, centro, templo e terreiro. Experiente no luxo, no lixo e na luxúria, com vivência no erudito e no popular. Praticante de artes marciais, degustações de café, vinho e seriados. Aprendiz de escritora, de viajante e de violonista. E agora, de blogueira. ​ Pode isso, produção???

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