Cartas para Gergelim, 08. Vamo pra guerra, o que tiver que ser será.

New Jersey, 04 de agosto de 2018.

É Gergelim, a hora da carta mais esperada chegou e olha só como são as coisas: justamente agora, me faltam palavras. Como diria Roberto: “são tantas emoções, bicho.”

A sua chegada, que veio antes do esperado (ansiosinha, hein?), foi o desfecho de quase 9 meses muito, mas muito intensos. A gente não fica aqui contando sofrimento porque a gente gosta da vida leve, mas quase ninguém sabe que nem tudo foram flores durante essa nossa jornada. Pouca gente sabe que depois de fazermos aquela caminhadinha de 200km até Santiago de Compostela, logo depois de eu me sentir a maior heroína do planeta, bateu o desespero misturado com uma culpa danada, e lá fomos nós, à meia-noite, bater na porta de um pronto socorro na Espanha pra eu ter certeza que você tava bem. E no dia seguinte era uma chuva de agradecimentos na igreja.
E, já aqui nos Estados Unidos, outra vez fomos parar no ER (olha só você brilhando comigo nas emergências internacionais), porque tive uma puta crise de falta de ar. Uma crise que quase gerou um infarto depois, quando chegou a continha do hospital de quase 3 mil dólares.
Ninguém sabe também, que há pouco tempo, eu saí correndo atrás de um moleque de seis anos pra brincar (uma ideia genial pra quem tem uma barriga de oito meses) e quando cheguei em casa tive que ser carregada pelo seu pai da garagem até a cama porque não conseguia me mover de tanta dor. Sorte que seu pai é todo trabalhado no Crossfit, porque, filha, me pegar no colo e subir escada é tarefa pra halterofilista. Também quase ninguém sabe que a gente não conseguiu uma única consulta médica aqui nos States! NENHUMA! Foi uma burocracia, bateção de cabeça e stress sem fim, o que significa que a gente ficou 5 meses na absoluta escuridão, sem saber se tava tudo bem uma com a outra, só confiando e se agarrando num troço que eu descobri muito forte esse ano e que se chama FÉ. Você se movia e eu agradecia e dizia: “vamo pra guerra, minha filha, o que tiver que ser será”.

E entre tantas emoções eis que chega uma madrugada que eu senti a tal da famosa contração. Senti uma. Duas. Três. E depois outra. E outra. E mais uma. E baixa aplicativo de medir contrações. E baixa aplicativo de ouvir coração do bebê (sim, gente, até isso existe). E mais uma contração. E sente dor. E cronometra. E pensa: fudeu! E fala: agora vai. E acorda o marido e diz: “porra, é hoje!”
É HOJE!
Mas calma. Pode ser alarme falso. Mas calma, se for alarme falso e tiver que voltar pra casa vem mais 2000 dólares só porque disse oi pra um médico e duas enfermeiras. Mas calma, que tu enrolou, enrolou e até agora não arrumou a droga da mala. Mas calma… Calma nada! Bora pro hospital, caracaaaa!
E chegando lá vem o Doctor, eu explico pra ele que não tenho nada de histórico, ele me olha com aquela cara do tipo “unbelievable!” e faz tudo que é exame e me diz assim: você não tem líquido nenhum e tem que fazer uma cesárea agora.
Oi?? Hein??? Reaaaaallyyyyy???
#medo #naotavapreparada
Ok, lágrimas escorrendo pelo rosto, “vamo pra guerra, filha, o que tiver que ser será”.
Umas três horas de contrações e espera e enfim é chegada a hora. Uma médica bacana, uma equipe legal, enquanto os enfermeiros contam os equipamentos um a um (pra ter certeza que não ficou nada na minha barriga depois), o anestesista me faz mil perguntas e os doutores fazem fofoca sobre uma tal de Janet. E depois eles me falam uma lista de riscos que eu estou correndo na cirurgia para eu ficar ciente. A minha vontade era gritar socorrooooo, mas eu só falei ok e assinei.
Anestesia dada, começam as perguntas pra saber se eu estou “grogue” ou lúcida:

Seu nome? Anna Ferrari, like the car. (eu já falo isso logo para não ter que soletrar). 

Idade? 39.

O que vc vai fazer agora? Meu parto.

Ok, let’s go! 


Tudo dormente, tudo plugado, pano azul, marido do lado segurando a mão. All set! Tudo pronto! Assim que começou, num piscar de olhos já veio aquela pressão forte na barriga e um grito de “she’s coming” e logo depois a gente ouve aquele chorinho, que, minhanossinhora, é a música mais linda que eu já ouvi na vida.
Gergelim! Gergeliiiiiiim! Você enfim chegou! Cada choro seu era um choro meu e um choro do seu pai. E a gente chorava e a gente ria e a equipe também. Foi lindo.
E quando te trouxeram pra gente  e eu coloquei meus olhos em você e olhei tudo inteiro, tudo perfeitinho, todos os dedinhos ali, parece que o mundo parou. A enfermeira disse: skin to skin? Siiim! Queremos pele com pele! E vc então veio pros meus braços e pro meu peito, coração com coração. E foi assim, uma sensação seguida de outra: primeiro eu te ouvi, depois te vi e então te senti. Parecia uma degustação do amor, um pouquinho de cada vez. Tão pequenininha e com um poder tão grande. De parar o tempo, de transbordar sentimento, de fazer entender o quanto a natureza é simplesmente foda. Que noite incrível, que experiência inesquecível.

Obrigada, Gergelim, por me fazer viver tudo isso de novo. Essa bênção dobrada. Obrigada por me escolher. Bem-vinda à vida, Maya! Aproveite cada segundo! Viva, viva, vivaaaa!
Agora você tá nesse mundo lindo, louco e cruel. Welcome to the jungle, babe!
Mas fica tranquila que a gente tá junto nessa. Sempre. Sempre juntas, sempre ao seu lado, sempre coração com coração. Vamo pra guerra, filha, que esse foi só o começo. O que tiver que ser será.

Escrito por

Oi! Sou Ana Ferrari.  Produtora de eventos, de filha bonita, de situações ridículas e de trapalhadas aleatórias. Especialista em perder coisas, fazer besteira, viver a vida e dar risada de si mesma.  PHD em crises existenciais que chegam antes dos 40 anos. Paulistana convicta com coração carioca. Leonina até dizer chega. Nem de direita, nem de esquerda. Interessada em igreja, centro, templo e terreiro. Experiente no luxo, no lixo e na luxúria, com vivência no erudito e no popular. Praticante de artes marciais, degustações de café, vinho e seriados. Aprendiz de escritora, de viajante e de violonista. E agora, de blogueira. ​ Pode isso, produção???

2 comentários em “Cartas para Gergelim, 08. Vamo pra guerra, o que tiver que ser será.

    1. Gabiiii! Eu fiquei tanto tempo desconectada do blog por conta dessa vida de mãe que não tinha visto esse seu comentário mais lindo. Obrigada de coração. Eu tive uma filha com 30 e outra com 39, veio tudo de surpresa… você pode até duvidar se vai ter ou quantos vão ter, mas a vida só nos surpreende e geralmente a gente só tem a agradecer. beijo gigante!

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