Cartas para Gergelim, 06. Esse lance de ser mulher.

New Jersey, 18 de julho de 2018.

Maya, meu gergelim!

Hoje acordei com uma mensagem no celular dizendo que você chega em quatro semanas. Eu disse QUATRO semanas! Que loucura, miagente! Falta muito pouco… E pra dar conta dessa mente inquieta e dar aquela tranquilizada na alma, resolvi te escrever…. Resolvi acender uma vela cheirosa, pegar uma taça de vinho (só metadinha) e tirar um momento pra conversar com você. Eu aposto que, como mulher, provavelmente você vá curtir uns momentos assim, de pequenos prazeres mundanos promovendo aquela intimidade gostosa, te jogando naqueles pensamentos tão seus, só seus.

Então hoje eu resolvi falar dessa coisa louca que é ser mulher. A gente ainda vai bater centenas de papo sobre isso, eu tenho certeza, e você vai ver que tem uma diferença danada entre ser mulher na Arábia Saudita, na Rússia ou no Canadá, e vai ver que às vezes não tem diferença nenhuma, porque mulher é mulher e pronto. Só a gente sabe o que é viver com esse turbilhão de sentimentos. E acredite, pode ser difícil e desafiador, mas é maravilhoso.

Por isso que eu vou te falar de duas palavras que estão tão na moda hoje em dia e que fazem uma diferença danada na vida de quem as incorpora no dia-a-dia: EMPATIA e SORORIDADE.

»Empatia: significa a capacidade de se colocar no lugar do outro, de sentir o que a outra pessoa está sentindo se tivesse vivendo a mesma situação.

»Sororidade: significa a aliança entre mulheres em prol de um objetivo comum, baseado sempre no companheirismo e na empatia (olha ela aí de novo!).

E eu vou te falar sobre isso sem fazer grandes discursos, sem apontar dedos, sem nada disso que pode ser um saco. Eu vou só te contar um pequeno exemplo de uma grande mulher: sua irmã. Sim, sua irmã mais velha, que não tem nem nove anos, mas que eu já vejo como uma grande mulher. E a gente enxerga isso nas pequenas atitudes, se liga…

Eu estou bem grávida, como você já sabe. Logo, eu estou BEM grande, filha. Tô pesada. Meus peitos estão gigantes, meu quadril parece daquelas baianas que vendem acarajé e minhas bochechas estão como as do Kiko do Chaves (relaxa que quando você for grande, provavelmente esse programa ainda vai estar passando na tv, só não sei se ainda vai ter tv). E claro que a barriga imensa vem se juntando a tudo isso formando uma grande massa, o que me transforma numa espécie de boneco do M&M, daquele vermelho, saca?

Ou seja: apesar de eu estar no momento mais bonito da minha vida, eu não estou me sentindo exatamente bonita por fora, entende? As roupas não me servem, nada fica bem, não posso usar os saltos que eu amo, e cada vez que preciso sair acabo colocando sempre a mesma coisa, sem graça. Aquele lance de “vou ser uma grávida super descolada e fashion” caiu por terra há muito tempo.

Enfim… Sua irmã, que passou a vida me zoando, me chamando de horrorosa, falando que meu cabelo ruivo é ridículo, falando mal das minhas espinhas (calma, isso é uma sacanagem gostosa nossa e logo mais você vai entrar nessa onda), sentiu meu drama, minha baixa autoestima, minha necessidade de elogio e olha só, cada vez que eu reclamo da minha aparência, agora ela se solidariza e diz que eu estou linda. Teve até um dia que seu pai estava apressado para sair e ela virou pra ele e disse: “calma, pai, deixa a mamãe se maquiar sossegada, porque ela vai se sentir melhor, vai ficar mais feliz”. Parece bobo, né? Mas isso é empatia e isso é sororidade. Primeiro conselho de mãe: pratique isso diariamente, com quem você ama e até com quem você não conhece. Porque isso muda o seu dia, o dia da pessoa e às vezes muda até a vida de todos.

Outro conselho: se inspire em quem vale a pena, em mulheres reais, de coragem, que vão fazer você abrir a sua mente. Quer saber qual o livro que a sua irmã adora que eu leia pra ela? Não é de nenhuma princesa, não… (apesar de que as princesas de hoje em dia são porretas, viu? Até a Disney sacou que o mundo mudou). É um livro de histórias de mulheres extraordinárias que fizeram diferença no mundo ao longo da história. Um dia a gente lê sobre a Frida Kahlo (de longe a preferida da sua irmã, até roupa igual ela tem), outro dia a gente fala da Rosa Parks, outro dia da Cleópatra, outro da Malala e por aí vai…. É uma inspiração feminina quase todas as noites. É uma delícia!

Calma, que eu vou ler pra você também! E até lá eu vou ter muitas outras histórias pra te contar. De livros, filmes, de amigas, da sua vó, da sua tia, da sua irmã! E até da sua mãe… porque ela pode não estar em nenhum livro, mas vou te falar que a pomba dela gira como o quê!

Vem, Maya. Vem viver a dor e a delícia de ser mulher nesse mundão. Tu não sabe o que te espera! Não vai ser suave, mas vai ser divertido.

Escrito por

Oi! Sou Ana Ferrari.  Produtora de eventos, de filha bonita, de situações ridículas e de trapalhadas aleatórias. Especialista em perder coisas, fazer besteira, viver a vida e dar risada de si mesma.  PHD em crises existenciais que chegam antes dos 40 anos. Paulistana convicta com coração carioca. Leonina até dizer chega. Nem de direita, nem de esquerda. Interessada em igreja, centro, templo e terreiro. Experiente no luxo, no lixo e na luxúria, com vivência no erudito e no popular. Praticante de artes marciais, degustações de café, vinho e seriados. Aprendiz de escritora, de viajante e de violonista. E agora, de blogueira. ​ Pode isso, produção???

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