Cartas para Gergelim, 05. A tal da ficha.

New Jersey, 03 de julho de 2018.

Oi Gergelim!

Queria te contar que ontem finalmente aconteceu um troço que só gente com muita experiência de vida como eu (gente mais velha, mermo… meio coroa, saca?) resume numa frase assim: “caiu a ficha”.

– “Caiu a ficha” é uma expressão pra dizer que alguém finalmente entendeu algo. Porque lá no século passado existia um troço que chamava orelhão e a gente tinha que colocar a ficha de telefone pra completar a ligação e só quando a ficha caía e fazia barulho, é que a gente conseguia falar. Um dia eu te levo num museu pra você ver o que é e te explico melhor…

O fato é que ontem “caiu a ficha” que você tá chegando. Finalmente eu caí na real que falta pouco. Bem pouco. Pouco mermo. Explico! Eu e seu pai montamos o seu berço (que deu um trabalho da p•, por sinal), arrumamos tudinho e deixamos o seu quartinho quase pronto te esperando. E quando a gente acaba esse tipo de missão, quando a gente realiza que a casa tem um cômodo que é só seu, que a gente olha pra aquele lençol ali pronto pra receber alguém do tamanho de uma boneca, parece que tudo vira realidade num passe de mágica. 

Passa cenas na cabeça tipo um filme: frames e mais frames com aqueles sorrisos banguelas que serão por muito tempo a primeira imagem do meu dia. É nesse berço que eu vou te buscar de manhã, de tarde, de noite e de madrugada. Às vezes vou chegar ali por pura inércia, tropeçando, porque o sono é tanto que eu não vou nem raciocinar, vou fazer o que tiver que ser feito com a tecla ligada no automático, tipo o filme do Charles Chaplin na fábrica. Às vezes eu vou chegar calma, pisando na ponta dos pés e só colocar a mão sobre o seu rosto pra ter certeza que você está respirando (sim, neuroses de mãe, que nem eu que sou tranquilaça vou escapar de ter). Às vezes vou chegar esbaforida por causa de um choro ou de uma tosse. Às vezes eu vou mandar alguém no meu lugar, porque afinal de contas eu sou sua superheroína, mas não sou nenhuma Mulher-Maravilha. 
Mas a grande maioria das vezes eu sei que vou chegar ali na maior ansiedade e na certeza que a partir daquele momento o dia vai simplesmente se transformar. Pra melhor, muito melhor. 

É Gergelim, o ninho tá feito, costurado, quentinho. Tá tudo no esquema, é só chegar. 
Vem que eu tô te esperando. Ou melhor, ainda não. Espere um mês. Ou mais. Ou menos. Não se apresse, mas não demore. Deu pra entender? Percebe que sua mãe já tá naquela mistura de emoção com pânico? Naquela mistura de “Deus me livre” com “quem me dera”??? É porque finalmente ela caiu, filha. A tal da ficha.

Escrito por

Oi! Sou Ana Ferrari.  Produtora de eventos, de filha bonita, de situações ridículas e de trapalhadas aleatórias. Especialista em perder coisas, fazer besteira, viver a vida e dar risada de si mesma.  PHD em crises existenciais que chegam antes dos 40 anos. Paulistana convicta com coração carioca. Leonina até dizer chega. Nem de direita, nem de esquerda. Interessada em igreja, centro, templo e terreiro. Experiente no luxo, no lixo e na luxúria, com vivência no erudito e no popular. Praticante de artes marciais, degustações de café, vinho e seriados. Aprendiz de escritora, de viajante e de violonista. E agora, de blogueira. ​ Pode isso, produção???

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