No Terminal.

Pra quem não me conhece, posso dizer que sou formada em confusão, especialista em esquecimentos, doutorada em trapalhadas. Só não consigo lembrar de todas porque também sou PHD em memória fraca, não consigo lembrar de final de filmes, nem de várias situações importantes, nem de algumas pessoas que passaram pela minha vida e muitas vezes me esforço absurdamente pra lembrar o que fiz ontem. Sim, sou assim e posso dizer: não é nada fácil ser eu. É trabalhoso e muitas vezes ainda custa caro. Esqueço de pagar conta e vivo pagando juros. Perco notas fiscais que me dariam direito a reembolso. Perco tudo que é coisa e acabo precisando pagar de novo. Ou seja, tô sempre no prejuízo por ser noventa por cento das vezes avoada e preguiçosa. Se eu fosse rica, certeza que contrataria um secretário (e se eu fosse ainda mais rica também contrataria um cozinheiro).

Ontem foi um dia brabo, daqueles que você fala: “Porra, porque eu sou assim?”. Até chorei no aeroporto… Mas se eu sou cheia de defeitos no quesito organização e responsabilidade, posso dizer que uma das minhas maiores virtudes é o poder de dar risada de si própria. E depois de tanto choro e frustração, fiquei tentando de todas as “pataquadas” realizadas por mim quando o assunto é aeroporto e avião. E é com muito (des)orgulho que listo aqui algumas delas (porque é óbvio que não me lembrei de todas):

Já cheguei atrasada no aeroporto por conta de uma reunião em BH e enquanto meu parceiro de trabalho, de 1,90 e passos largos corria pra tentar pegar o nosso voo, eu ia correndo atrás, de salto, ofegante, e com passinhos de anã enquanto ouvíamos o nosso nome no auto-falante. Quando finalmente chegamos no balcão, a “feladaputa” da atendente olhou pra nossa cara com sorriso sacana e disse: embarque encerrado. Vacaaaaaaaaaaaaaaaaa! Eu, exausta, sentei numa das poltronas por ali, completamente arrasada. Fui em busca do meu parceiro que estava já comprando a passagem bem longe dali quando me dei conta: “Caraca, cadê meu celular???”. Volto correndo de salto e passos de anã, e quando chego esbaforida na poltrona, lá está meu Iphone, são e salvo. Ok, perdi o voo, o fôlego e a compostura, mas não perdi o celular.

Em Congonhas uma vez, cheguei na máquina para fazer o check in e quando fui pegar o telefone para conferir o número da reserva, olho na bolsa e digo: “Caraca, cadê meu celular???”. Lembro que deixei no táxi. Lembro que o motorista me deu um cartão. Olho com aquela cara fofa do Gato de Botas* para o primeiro engravatado que eu vejo, peço o celular emprestado e ligo pro taxista. E ele dá a volta na 23 de maio e vem me entregar. Fofo. Grata pelo reencontro com meu celular e pelo charme e simpatia que Deus me deu.

Teve uma outra vez que consegui entrar na sala vip em Abu Dhabi mesmo voando em classe econômica, naquele famoso jeitinho brasileiro. Deslumbrada com tanto luxo, conforto e comida de graça, me esparramei na poltrona de lá. Entrei no avião horas depois, e já sentada na poltrona, resolvo respeitar as normas de segurança e novamente eu me perguntei: “Caraca, cadê meu celular???”. Peço autorização da comissária pra poder sair do avião, ela diz que eu não posso mas passa um rádio para uma equipe vasculhar a sala vip. Alguns minutos depois, a comissária volta respondendo: “Sorry…” É, dessa vez, o meu anjo da guarda protetor de celulares deve ter ficado distraído com tanto luxo, e a minha sofisticação temporária custou bem caro. Lá se foi meu Iphone.

E não é só celular. Já esqueci também relógio e notebook no raio-x no Rio de Janeiro. Peguei minha bolsa e fui embora, só me dei conta muitos e muitos minutos depois. Já me esqueci de mala na esteira, mas também já me esqueci onde foi que isso aconteceu.

Já teve drama também. Voltando do México descobri que minha cadeira não reclinava porque ficava perto da saída de emergência. Xinguei a companhia aérea mil vezes e chamei o comissário 1, que virou pra mim e disse que o voo estava lotado e não podia fazer nada. Quando passou o comissário 2, eu o chamei, fiz a cara do Gato de Botas, e chorei em espanhol falando que estava “embarazada”** e precisava de outra poltrona. Ele conseguiu remanejar três pessoas de lugar e foi meu herói do dia. E meu charme venceu.

Quer mais drama? Tem também. Outra vez, chegando em Nova Iorque depois de um atraso monstro em que todos ficaram presos no avião sei lá porquê, comecei a passar mal. Procurei um saquinho e nada. Procurei um banheiro: ocupado. Procurei outro banheiro: ocupado. Fiz mímica pra aeromoça e nisso meu vômito começou a sair, o cara que estava em pé na minha frente fez um desvio na coluna tipo Matrix em câmera lenta e conseguiu escapar por um triz. A comissária foi ninja, abriu a gaveta da lixeira e lá eu consegui encerrar meu voo em classe econômica sem classe alguma e com a roupa toda imunda.

Que eu me lembre foram essas situações… mas nada supera a de ontem.

Mudança de país com a família toda: marido, filha e neném na barriga. Isso significa muita expectativa, muita gente curtindo e muita gente sofrendo. Dia de viajar, correria danada durante o dia e muito stress com medo de atrasar. Uma hora e meia de trânsito até Guarulhos, devolvemos o carro, saímos com 6 malas lotadas com a vida inteira dentro, mais todas as bagagens de mão possíveis. Encontramos a família toda no saguão, todos preparados para chorar muito no maior clima “Chegadas e Partidas”***, pegamos a fila e quando chegamos ao balcão de check in:

– “Três passageiros para Nova Iorque.”

– “Passaportes, por favor.”

Minutos depois…

– “Senhora, eu não estou achando o seu nome no sistema. A senhora teria a reserva?”

– “Claro, está aqui”.

– “Minha senhora, o seu voo é para o dia 21, daqui a dois dias!”.

E eu termino esse texto por aqui, no aguardo de currículos de secretários. Grata. Sem mais.


*Cara de Gato de Botas:o-gato-de-botas-600x375

**Embarazada – grávida em espanhol.

*** Chegadas e Partidas – programa do GNT feito pela maravilhosa Astrid Fontenelle que ficava no aeroporto registrando histórias maravilhosas de quem está vindo e de quem está indo. Choradeira garantida ou seu dinheiro de volta.

 

Escrito por

Oi! Sou Ana Ferrari.  Produtora de eventos, de filha bonita, de situações ridículas e de trapalhadas aleatórias. Especialista em perder coisas, fazer besteira, viver a vida e dar risada de si mesma.  PHD em crises existenciais que chegam antes dos 40 anos. Paulistana convicta com coração carioca. Leonina até dizer chega. Nem de direita, nem de esquerda. Interessada em igreja, centro, templo e terreiro. Experiente no luxo, no lixo e na luxúria, com vivência no erudito e no popular. Praticante de artes marciais, degustações de café, vinho e seriados. Aprendiz de escritora, de viajante e de violonista. E agora, de blogueira. ​ Pode isso, produção???

4 comentários em “No Terminal.

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