Sobre trabalho, gratidão e fé

Meu trabalho é F-O-D-A!!! A interpretação de foda aqui vale para o bem e para o mal. Eu já disse isso aqui e, para quem é produtor de eventos, sabe que essa oscilação de pensamento em relação à profissão é quase que diária. Mas hoje eu estou num daqueles momentos de êxtase, sentindo que eu preciso, mais do que nunca agradecer.

Ser produtor é sangue, suor e lágrimas, mas também é muita risada, alegria e realização. Foi através do meu trabalho que conheci pessoas incríveis e admiráveis (e muito loucas também), foi como eu fiz muitos dos meus melhores amigos, foi por onde eu conheci lugares fantásticos (da favela ao Japão) e foi assim que eu também vivi coisas incríveis.

Eu vi mais de cem mil pessoas cantarem Maria Maria com o Milton Nascimento no Parque do Ibirapuera, num dos momentos que eu mais me arrepiei na vida.

Eu fiquei lado a lado com as guitarras incríveis do Joe Satriani.

Eu vi uma Angolana, negra e linda, se tornar a Miss Universo no Brasil e ser ovacionada pelo público.

Eu vi crianças com câncer, passarem por momentos de alegria, mesmo com tanta dor envolvida. E ouvi histórias que me marcaram pra sempre.

Eu vi fã chorar só de chegar perto da primeira guitarra quebrada pelo Kurt Kobain.

E eu compartilhei um momento de banheiro com a Alcione, com ela cantando enquanto fazia xixi. Parece bobo, mas aquele vozeirão ecoando na cabine do banheiro ao lado foi emblemático, juro.

Mas foi através do meu trabalho que eu tive um encontro com a fé. Um não, três. E de tudo que eu vivi nesses anos todos de carreira, esses três momentos talvez tenham sido os que mais me marcaram.

Dois desses momentos foram vividos no Círio de Nazaré. Pra quem não sabe, o Círio é a maior festa religiosa do Brasil, uma das maiores do mundo, é considerado Patrimônio da Cultural da Humanidade pela Unesco e reúne mais de dois milhões de pessoas, em apenas uma manhã, nas ruas de Belém do Pará, sempre no segundo domingo de outubro. Para os paraenses o Círio é mais importante que o Natal. As famílias almoçam juntas, com comidas típicas e tradicionais e se desejam “Feliz Círio”.

E antes desse almoço são várias e várias procissões que seguem pela cidade alguns dias antes. De barco, de moto, de cavalo e, claro, a pé. Todos seguindo Nossa Senhora de Nazaré, a padroeira chamada pelos íntimos (no caso, por todos) de “Nazinha”, que segue majestosa numa berlinda dourada lotada de flores. É no mínimo, bonito de se ver.

Mas é muito mais do que bonito. Imagine milhares e milhares de pessoas, segurando uma corda de sisal bruto (de 400 metros de comprimento e 700 quilos), caminhando por horas, com os pés descalços no asfalto quente-pegando-fogo, orando e cantando? E outras milhares de pessoas caminhando ao lado, segurando na mão, distribuindo água, falando palavras de apoio? E muitas dessas pessoas, ainda fazem o trajeto de joelhos, para agradecer uma graça alcançada ou pedir algo extremo. O Círio é simplesmente AVASSALADOR. Não dá pra ficar imune, não se emocionar. Você pode estar lá a trabalho, como foi o meu caso, mas quando você vê, está lá simplesmente jogada no chão, chorando que nem criança, tomada por uma emoção indescritível e nem sabe descrever o porquê.

E o último momento foi agora, produzindo os shows do Festival da Padroeira, em comemoração aos 300 anos da aparição de Nossa Senhora Aparecida. Era um projeto gigante, que envolvia uma puta estrutura, dias e dias de montagem, meses de planejamento, uma logística daquelas, ensaios com orquestra, banda, arranjos e vários artistas consagrados da música popular brasileira. Todos esses artistas cantando músicas que falavam de Maria e todos eles contando a história de como foram tocados pela fé. Foi lindo.

Mas, de novo, o que mais tocou não foi a realização do trabalho, e sim todas as formas de demonstração de fé que eu vi por lá. Era gente do Brasil inteiro chegando naquele santuário. Chegando sozinhas, em grupos, com famílias, com crianças, de ônibus, de carro, a pé, carregando velas enormes, cruzes pesadas, dormindo em barracas. Peregrinos chegando de todas as partes, vermelhos, exaustos, com bolhas nos pés. Uma multidão de pessoas imbuídas de uma crença fervorosa embaixo de um sol de rachar. Não tem como ver tudo isso e não se sensibilizar.

Enfim, eu não fui tocada ainda por essa devoção, e talvez ainda esteja à procura dessa fé, mas a fé dessas pessoas me tocou de verdade. E eu nesse momento, me desculpem o clichê, sou só gratidão. Pela vida, pelo meu trabalho e pela oportunidade de presenciar essas atitudes tão lindas e tão fortes. Hashtag obrigada três vezes.

E como eu recebi o tal do “chamado” esse ano, lá vou eu encontrar meu momento de fé em Santiago de Compostela o ano que vem. Os preparativos continuam para a minha peregrinação e alguma coisa me diz que vou encontrar algo mais por lá, nem que seja um encontro profundo comigo mesmo. E eu vou parar por aqui, porque estou ficando profunda até demais…


Ok, foi um momento inspirador, mas não esperem muito mais disso, em breve voltaremos com mais textos bobos, conteúdo irrelevante e com pitadas sacaninhas… See you soon!


Segue um pouquinho do que foi esse projeto lindo do Festival da Padroeira com realização da Dançar Marketing e do Santuário Nacional e um pouquinho da grandeza do Círio de Nazaré.

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Escrito por

Oi! Sou Ana Ferrari.  Produtora de eventos, de filha bonita, de situações ridículas e de trapalhadas aleatórias. Especialista em perder coisas, fazer besteira, viver a vida e dar risada de si mesma.  PHD em crises existenciais que chegam antes dos 40 anos. Paulistana convicta com coração carioca. Leonina até dizer chega. Nem de direita, nem de esquerda. Interessada em igreja, centro, templo e terreiro. Experiente no luxo, no lixo e na luxúria, com vivência no erudito e no popular. Praticante de artes marciais, degustações de café, vinho e seriados. Aprendiz de escritora, de viajante e de violonista. E agora, de blogueira. ​ Pode isso, produção???

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